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Edu Carvalho: [0:00] Muito boa noite, Eron. Que prazer, que abertura.
Eron Falbo: [0:05] E aí, Edu, beleza? Seja muito bem-vindo, cara.
Edu Carvalho: [0:09] Tudo certo, querido. Uma honra estar aqui conversando com você. Uma alegria estar aqui compartilhando um pouco de história, um pouco de conversa com o teu público, com você. Muito deslumbrado.
Eron Falbo: [0:22] Valeu, que recepção calorosa, muito obrigado. A honra é toda minha, pode ter certeza, cara. Dá para ver que você, apesar de seus poucos anos, é uma pessoa madura, uma pessoa que já está entregue ao ativismo, a melhorias sociais, à sua profissão, isso aí realmente é bonito de ver e é um contraste com o resto da sua geração. Sem muita crítica a eles, mas com mais elogio a você.
Edu Carvalho: [0:52] Muito interessante você tocar nesse ponto, porque ontem eu estava na bancada do Roda Viva. Eu estou vindo dos últimos tempos de talk show para talk show. Muito bom. Desse mesmo lugar, fiz um ano passado. Agora, hoje, converso com você, mas ontem eu estava na bancada do Roda Viva, entrevistando a diretora da Anistia Internacional no Brasil, a Jurema Werneck. E ela dizia exatamente sobre isso, sobre essa geração. Ela falava, no tocante à minha geração, os mais jovens, também é você, tá? Não se tire dessa, não. Mas ela falava que a nossa geração é uma geração que já nasceu com muita expectativa. E até mesmo antes da gente nascer, tinha expectativa, antes, durante e agora para o futuro, porque é uma geração totalmente modificada com o advento das redes sociais. É uma geração voltada, de certa forma, à adulação que essas redes sociais promovem. Enfim, todas as causas, os movimentos.
Eron Falbo: [2:03] Ao mesmo tempo que informada, com muito acesso...
Edu Carvalho: [2:07] Exatamente.
Eron Falbo: [2:09] A sua voz modificar as coisas, sua voz ser ouvida.
Edu Carvalho: [2:14] Exatamente, eu acho que informada e também mal informada, porque ao mesmo tempo que dispõe de um acesso tremendo a partir de um celular, em uma conexão, eu não estou dizendo que nem todo mundo, mas grande parte...
Eron Falbo: [2:25] É desinformado, é misinformation, não é só fake news, mas às vezes são notícias manipuladas, com vieses. Eu acho que, pelo menos eu crescendo, a minha impressão é que nunca a mídia mainstream esteve tão politizada, escolheu tantos partidos e campanhas de mensagens.
Edu Carvalho: [2:58] Exato, e eu acho que tudo culmina no momento que a gente está vivendo agora, que é essa infodemia, onde todos somos impactados por tudo que acontece e, sobretudo, porque estamos nas redes sociais, adoecemos por conta desse impacto das notícias que recebemos e também impactamos outras pessoas, tantas, por conta de tudo isso que tem acontecido. Então, há um movimento, é uma via de mão dupla, e justamente isso: ela terminava dizendo que nós temos que ter muita cautela para poder seguir, para poder, enfim, sobretudo no Rio de Janeiro, no Brasil, a gente poder construir um projeto de país decente e igualitário para todo mundo.
Eron Falbo: [3:44] Eu gostei do termo que você, a primeira vez que eu estou ouvindo, então para mim você cunhou, é infodemia, porque eu acredito que realmente a gente está vendo claramente essa pandemia sendo espalhada pelo mundo pela primeira vez, que é uma coisa física, mas a gente vê claramente que, antes disso, houve a Primavera Árabe, houve uma série de coisas que foram incendiadas através de pedaços de informação que foram transmitidos por certos grupos.
Edu Carvalho: [4:16] Você falando disso, eu fico lembrando, a gente estava vivendo, nesse momento, um grande momento de tensão, mais uma vez, em Israel, e lendo todos os newspapers de fora, o quanto isso tem sido feito a partir das redes sociais, essa tensão, esse espalhar de notícias. E quando você vê isso ali em Israel, 2009, 2012, 2014, 2019 e agora, 2013... Primavera Árabe, né, na verdade 2012, 2013. Então você já vê ali que muitas das tensões têm sido feitas, claro, há uma presença muito forte de fato, ali ao vivo, mas também é uma presença muito forte nas redes sociais.
Eron Falbo: [5:03] Eu acredito que a gente está começando a amadurecer um pouco, porque eu lembro na época da Primavera Árabe, acho que foi 2011 mais ou menos, e a gente estava com uma esperança de que existia uma liberdade, porque o Gaddafi foi derrubado, depois o Mubarak foi derrubado, a Primavera Árabe. E a gente ficou com essa impressão de que as tiranias vão ser derrubadas através da informação. E eu acho que hoje a gente está tendo um outro lado da moeda, que é: ao mesmo tempo que as tiranias supostamente estão sendo derrubadas, a gente percebe que tem gente na Rússia hackeando, soltando as informações, o negócio é mais complexo. Pô, ao mesmo tempo que muita gente chamaria o Bolsonaro de um presidente que seria talvez amigo de gente como o Mubarak, eu pessoalmente não diria isso, que eu não tenho esse viés nem esquerda nem direita, mas tô dizendo que do mesmo jeito que a gente pensaria em uma certa liberdade, as redes sociais também botaram alguém como Bolsonaro no poder, alguém como o Trump, alguém como o Boris Johnson.
Edu Carvalho: [6:21] Aí é que está o grande dilema das redes, essa é a grande dinâmica. Eu vinha conversando recentemente com um jornalista que, de uns tempos para cá, voltou a pensar as redes sociais. Na verdade, a presença nas redes sociais... O Bruno Torres foi um dos criadores da Mídia Ninja e saiu logo em seguida, e hoje acompanha esse processo, esse fenômeno, de fora. Ele vinha dizendo isso: acreditava-se, era uma sensação coletiva de que as pessoas eram donas das suas redes e estavam todas em coletivos e que, de fato, a liberdade seria possível. Mas... Espera.
Eron Falbo: [7:14] Aí, Edu, deu uma travada e eu ainda não estou conseguindo te escutar. Vamos dar uma esperada para ver se ele volta. Alô?
Edu Carvalho: [7:22] Alô?
Eron Falbo: [7:24] Alô?
Edu Carvalho: [7:25] Alô?
Eron Falbo: [7:25] Você voltou? Só para aproveitar rapidinho: pessoal, eu esqueci de trazer meu computador, alguém pode trazer meu laptop aqui, por favor, para eu poder ver se tem mensagem? Voltou aí?
Edu Carvalho: [7:37] Você está... Estou escutando super bem.
Eron Falbo: [7:39] Acho que estou te ouvindo bem também. Desculpa, o que você estava falando?
Edu Carvalho: [7:45] Ele dizia que, na verdade, as redes sociais se tornaram um grande feudalismo. Nós somos todos, de certa forma, filhos desses senhores feudais, poucos grandes senhores feudais. Enfim, não conseguimos sair dessa redoma, infelizmente.
Eron Falbo: [8:06] Com certeza, tem essa oligarquia internacional, eu acho que existe isso cada vez mais claramente e cada vez mais, vamos dizer, escrachadamente, porque já que a gente vive na era em que as coisas estão sendo divulgadas quase livremente, existe pelo menos no WhatsApp ou no Telegram, ou pelo menos por alguns segundos, existe alguma espécie de portal onde a gente consegue ouvir as coisas. Mas, ao mesmo tempo, a gente vê o desenrolar da Primavera Árabe, depois veio o Wikileaks com Edward Snowden, e outras coisas sendo caladas, fontes sendo cortadas. E a gente vive numa era não só de misinformation, como numa era de ceticismo popular, que eu acredito que é bem-vindo por um lado, que já tava tarde, né? O povo antigamente acreditava em qualquer coisa que era impresso, e aí hoje a gente tá vendo as consequências disso, que as pessoas acreditam em qualquer coisa que é passada no WhatsApp, e aí isso é levado ao ridículo, né? Antigamente lia-se qualquer coisa na Veja e acreditava. Isso tá errado, você não tem que acreditar em qualquer coisa que você lê, porque tem viés em tudo. Ao mesmo tempo, obviamente você não deve acreditar em alguma coisa que te mandaram pessoalmente, isso não é fonte de nada. Então eu acho que o mundo tá sendo, aos poucos, educado pra criar um ceticismo e sair dessa crença absoluta nas coisas.
Edu Carvalho: [9:57] Eu concordo muito e acredito que, felizmente, eu acho que, volto a reforçar, o advento da internet e, sobretudo, das redes sociais, ele é uma grande chave para que isso tivesse sido quebrado, sabe? Que você trazia muito bem: alguém lia antigamente na Veja e falava, puxa, é a Veja que disse, eu vou acreditar. E a gente pensava a comunicação como só emissor e receptor. Agora o mundo se conecta e se comunica através de redes. Então não tem mais essa coisa da Veja, do Globo, da época dual. Qualquer pessoa que tenha um celular, um smartphone e conexão 3G ou 4G, que seja, que ela possa ter as redes sociais e possa colocar... Tanto é que todos, hoje, em potencial, nos tornamos comunicadores, mesmo aqueles que não fizeram.
Eron Falbo: [10:57] Edu, eu vejo, em termos, vamos dizer, em helicopter view, pegar um helicóptero e sair dos nossos tempos, na verdade, que nem eu falei no começo, sair dos nossos tempos e ver todos os tempos no geral. Eu sinto que isso que tá acontecendo, na verdade, sempre foi assim, e isso tá sendo revelado dessa forma, porque assim, criou-se uma camada, uma ilusão de que havia um emissor e um receptor, né? Mas, no fundo, sempre houve um feedback. É claro que a força do sinal era menor, mas sempre houveram bastidores, sempre houveram feedback público, surveys que eram criados pro público. Então o ser humano sempre foi um comunicador, agora ele tá se entendendo, ele tá acordando como um comunicador e ele tá lapidando sua voz e tá tomando mais responsabilidade pelas consequências da sua voz. Então tá tendo CPI da fake news, como se fosse novidade fake news. Mas agora a gente pelo menos tá falando, agora eu, como cidadão, não tô olhando pro governo como se o governo tivesse responsabilidade pra me dar a informação. Eu tô entendendo que eu tenho responsabilidade sobre o que eu passo pra frente.
Edu Carvalho: [12:14] Exatamente, exatamente. Aí você chama o indivíduo, o cidadão comum, à responsabilidade. Mas será que ele está preparado para entender que ele também faz parte desse jogo? Porque é muito isso, né? A gente, sobretudo aqui no Brasil, está sempre sem compromisso com essas discussões, quando chamada à responsabilidade, talvez por conta do nosso recente aspecto democrático. Quando a gente vai falar assim: poxa vida, você tem uma Constituição que foi feita em 88, muito recente, e a dimensão disso é muito recente. Além de ser recente, foi uma construção.
Eron Falbo: [12:57] Feita entre quatro paredes para satisfazer um grupo de mafiosos. Além de ter sido recente.
Edu Carvalho: [13:08] Exato. Será que nós estamos, de fato, preparados para entrar nessa discussão sobre responsabilidade? Porque, como eu dizia, por conta dessa tão recente entrada, de fato, na democracia ou na redemocratização, eu acho que isso também impactou muito na dinâmica de como se perceber dentro desse conjunto, que é uma nação, um projeto.
Eron Falbo: [13:38] De nação... Um cidadão responsável pelo seu próprio futuro, pelas suas próprias possibilidades.
Edu Carvalho: [13:44] E no Brasil acontece muito isso, não sei se você percebe, era um de que tudo, e isso é revelado sempre a cada quatro anos. Que é: puxa vida, fizemos uma escolha, no final deu errado, quem colocou essa pessoa ali? Então, é sempre assim, como é que essa pessoa foi parar ali?
Eron Falbo: [14:03] Eu gosto de uma piada do George Carlin, que é uma piadista dos anos 80, dos 90, que ele fala o seguinte: galera, vocês nunca pararam para perceber que eu reclamo de tudo, mas uma coisa que eu não reclamo é de político. Porque, cara, os políticos é a gente, sacou? Sou eu e você. A gente tá se colocando lá, então, tipo, eu vou reclamar de mim mesmo? Tipo assim, no final das contas é tudo a mesma coisa, porque é a gente, sacou? É a nossa cultura, é o nosso jeito de pensar, é isso que tá sendo colocado lá e a gente tá reclamando disso, sacou?
Edu Carvalho: [14:34] Exato, e acho que faz muito parte do amadurecimento nosso compreender essa dinâmica, para podermos amadurecer enquanto cidadãos comuns, individuais, e também enquanto pertencentes à sociedade, ao que queremos. Eu repito, bato muito nessa tecla: qual é o projeto de país que nós queremos colocar esperança e lutar? E quando eu falo assim, um projeto de país, as pessoas ficam: nossa, como ele tá sendo top. Não! Coisas básicas, nosso direito, direito à vida. Num momento como esse, pandemia, direito à vida. É a gente ter vacina, por exemplo.
Eron Falbo: [15:11] Eu acho esse ponto que você tocou muito interessante, porque eu sou ativista, praticamente, de mudar a Constituição do Brasil atual. Mas eu acho que esse ponto que você fez é até anterior ao meu ativismo, que é uma indagação ao povo brasileiro para responder à pergunta: o que eu quero como povo brasileiro, o que eu quero como cidadão brasileiro para o futuro do Brasil. Eu acho que essa discussão tem que ser colocada muito à pauta, porque enquanto eu, vamos dizer, eu simpatizo e eu te escuto como irmão e, vamos dizer, eu imagino que as nossas respostas para as perguntas seriam as mesmas. Algumas das formas de fazer essas perguntas estão muito carregadas hoje em dia de polarização política e que já leva a gatilhos mentais, gatilhos de respostas mal criadas e coisas do tipo. Eu acho que a gente tem que fazer uma indagação mais profunda do que a gente está fazendo atualmente para fazer perguntas melhores. A gente tem que ter um momento grande aqui no Brasil, saiu o momento de se perguntar assim: imagina o que Gandhi teve que fazer na Índia, eles lá tinham uma polarização de todos os tipos imagináveis, eles tinham várias castas, vários estados, várias línguas, várias religiões, e eles conseguiram criar um movimento popular pacífico de restauração nacional.
Edu Carvalho: [16:51] Acho que, quando você fala isso, é muito importante, porque o contrário de polarização, onde não há conversa, onde não há debate, é o cenário de diálogo, onde há fala e há também escuta. A gente precisa democratizar a escuta para chegar nessa pergunta, para chegar no momento dessa pergunta. E essa pergunta tem que vir, na verdade, como você fala, sem vícios. É uma pergunta: o que você quer para o Brasil? O que você quer para o futuro? Você quer...
Eron Falbo: [17:26] E assim, a gente tentar de alguma forma, eu nem sei como fazer isso, isso é uma indagação, um brainstorming.
Edu Carvalho: [17:34] Eu também não sei.
Eron Falbo: [17:34] Mas inspirar as pessoas e eu mesmo, me inspirar. Primeiro, eu falar do coração. E quando eu falar, me policiar para eu não estar representando um grupo, e sim representando a minha vontade individual e a minha vontade para todos ao mesmo tempo, por uma coisa saudável, por uma coisa funcional, por uma coisa que engloba o bem-estar de todos. Eu odeio parecer, vamos dizer, piegas e um pouco, vamos dizer, não funcional com a minha fala, mas eu tô falando isso porque recentemente eu fiz um curso de palhaço, porque eu tô tentando aprender a ser um comunicador melhor. E eu cheguei à conclusão que eu mesmo, e me percebi eu participando de uma patologia nacional e talvez global, de pessoas falando muito, defendendo identidades de grupo. E acho que as pessoas, dentro desse cenário de mídia social, onde você meio que tem que dar o like em tantas coisas, você acaba tendo que defender muitas coisas que não são além de você, que são grupos. E a gente acaba se desconectando do mais complexo, né? Tipo assim, entre Lula e Bolsonaro existe algumas coisas que o Lula fez de certo, algumas coisas que o Bolsonaro fez de certo, existe algumas coisas atrozes que o Bolsonaro fez e coisas atrozes que o Lula fez. E essa é a complexidade da vida, né? A gente não tem que entrar dentro de um barco absoluto e de titânio, né, que a gente tem que vender para outras pessoas. Acho que isso que faz parte da maturidade que a gente tem que chegar na nossa liberdade democrática.
Edu Carvalho: [19:44] Apresentar essas dualidades todas, quando cada um se coloca, se mostra, faz a sua carta de apresentação. Aí a gente parte para uma outra conversa, que é: tá, esses dois campos, esses dois lados, porque também é uma... Olha que loucura você falando sobre isso. Eu lembro, na época que eu fiz parte da equipe do Conversa com o Bial, uma das chamadas que a gente fez para as estreias anuais era o Bial falando: não existe isso ou aquilo, é isso e aquilo para início de conversa. Onde você não desperdiça absolutamente nada. Mas, no âmbito de que você faz essa carta de apresentação, você consegue saber muito bem aquilo que você quer e aquilo que você não quer. Tenho certeza que, na hora de fazer a conta, é sempre assim. Há muito mais semelhanças com o diferente do que os próprios contras. Há muito mais semelhança quando você abafa ali os vícios, abafa ali a grita, e você chega no outro, como você disse, com sentimento, com humanidade, com um olhar sem fim.
Eron Falbo: [21:07] É porque é isso que a gente tem, todo mundo, em comum, porque somos todos seres humanos escolhendo esses diversos grupos. Mas se você tira esses diferenciais, são os grupos: você tem o coração, você tem a vontade de fazer o bem, você tem o amor pela família própria e dos outros. Independente do que você chama de família, né? Você pode ter um que é a favor de famílias homossexuais, outros que não é a favor disso, mas todo mundo é a favor de famílias, né? Então, o que você chama de família...
Edu Carvalho: [21:37] Aí isso tá apresentado, aí eu parto do pressuposto: você enxerga amor na família que você tem, sendo uma família heteronormativa; você enxerga amor na família que você tem homossexual. Então, partimos de: existe amor, ponto. Aí a gente vai discutir depois.
Eron Falbo: [21:54] E temos que preservar a família, não é tipo uma coisa PFP. É uma coisa tipo preservar a família, seja ela qual for. Todo mundo concorda com isso.
Edu Carvalho: [22:02] Exato, exato. Acho que vai nesse caminho. Pelo menos é o que eu rezo e espero.
Eron Falbo: [22:09] Então, cara, eu tenho muita coisa pra te perguntar. Já que a gente concorda em tudo, vamos começar nos detalhes. Eu vou pegando esse gancho nosso aí que a gente começou, de como a gente pode contribuir com o nosso jornalismo para que essa educação nossa, minha e sua, e do nosso povo, seja feito esse amadurecimento social da democracia que a gente está iniciando, vamos dizer. E eu acho que isso vale para o mundo também, essa democracia informativa está acontecendo no mundo inteiro, a gente amadurecendo, aprendendo a lidar com a liberdade de informação que a gente está tendo hoje, isso está acontecendo no mundo inteiro. Então, o Brasil está mais em termos de a gente sair do paternalismo estatal, dessa coisa de o Estado entregar tudo e a gente ficar passivamente esperando. Agora a gente tá tendo responsabilidade social pelas coisas que a gente conquista, pelas coisas que a gente vive, ao mesmo tempo que tem a nossa democracia informativa. Então, eu sei que você tem seu programa, pode entrar nisso, que você participou da redação do Bial. Então, eu queria o seu feedback, cara, porque, sinceramente, eu estou começando nesse mundo do jornalismo, eu queria saber da sua história nisso, o que você pretende. De repente, você começa a falar um pouquinho sobre o seu mundo jornalístico e eu vou fazendo umas intervenções.
Edu Carvalho: [23:48] Não, primeiro, é sensacional mais gente chegar e apresentar novas formas, novas visões de como se pensar comunicação. Acho isso fundamental. E você já se mostra um exemplo para todo mundo seguir, discutir, animado, engajado, com muita vontade, e tentando dessacralizar um pouco como a gente vê comunicação, porque o que é comunicação? É chegar ao outro da melhor forma possível, da maneira mais direta. Informação, eu digo sempre, eu brinco, que eu sou pontífice. E não é só um papa que é pontífice, não. Não é só ele que pode ser pontífice. Eu também posso, porque eu levo informação através do outro. Eu não falo por ele. Eu sou uma ponte.
Eron Falbo: [24:35] E as pessoas vão tendo... Adorei esses dois conceitos: um, eu dessacralizando as coisas, e você sendo pontífice. Adorei.
Edu Carvalho: [24:43] Se eu pensar que eu falo pelo outro, que é o que todo mundo, sobretudo os comunicadores, quando a gente falava inicialmente dessa coisa do emissor-receptor, eu invalido o outro. E aí ele passa a ser a pessoa que eu estou dando voz. Não existe isso, volto a repetir. Eu tenho celular e conexão, eu tenho a minha voz. Aí vem a pergunta, né? Ou seja, você tem parado para escutar quem está do seu lado? Quem tem falado? Quais são as vozes que você tem escutado? São vozes divergentes? São vozes que falam o mesmo assunto? Por quê? Então parte daí esse pressuposto.
Eron Falbo: [25:23] Cara, a gente tá às vezes na mesa de jantar e tem o nosso pai ou o nosso avô falando alguma coisa, a gente fala: "Não, mas eu recebi aqui no WhatsApp esse gráfico." Aí a gente tá assim, tipo, contradizendo o avô que a gente nem tá ouvindo, porque a gente tá no celular.
Edu Carvalho: [25:40] Primeiro, ouçam os mais velhos. Eu acho que eles sabem se comunicar melhor do que ninguém. Fizeram a revolução da comunicação antes de mais nada. E tem um lado muito interessante que é abrir todas as portas, é quebrar os muros mesmo, é falar... A experiência que eu, no Conversa, vou tentar resumir aqui, as duas experiências, porque são as maiores que eu tive assim de, enfim, como comunicador que está partindo ali pensando, né, as conversas que podem ser feitas. No Conversa eu fiz parte da equipe de redação, e mais recentemente eu fiz um projeto no meu Instagram, que era conversar com pessoas diferentes, assim, e ver que tem assuntos muito urgentes, e é isso que vai unir as pessoas para esse projeto de país que a gente estava falando inicialmente. Então é o mesmo, é assim: é você pegar a Lilia Schwarcz, que é uma historiadora, hoje uma das maiores intelectuais do país, e começar, a partir da Rocinha, com a Lilia em São Paulo, Lilia sendo uma professora da USP, de certa forma dona da Companhia das Letras, e a gente falar desse Brasil real e verdadeiro que acontece nas periferias e favelas, e não só nesses lugares, mas colocar essas pessoas como agentes de transformação. Então é você perceber que qualquer pessoa tem o que dizer. É você... Na semana, eu cheguei a fazer isso, na semana seguinte eu recebi a Thaisa Machado, que tem feito uma revolução aqui no Rio de Janeiro. É uma menina que dá aula de funk, afrofunk, e ela vai buscar nas aulas de funk que ela dá toda a história que vem com os antepassados. Ela antes, presencialmente, colocava quase 150 pessoas numa sala durante duas horas para dançar e rebolar até o chão. Ela tem feito isso no Zoom, imagina, 200 pessoas rebolando e rebolando com conhecimento. Então, isso não é comunicação? Ela não está fazendo comunicação com a história? Ela não está fazendo um movimento...
Eron Falbo: [27:54] É o futuro, né, Edu? Isso a gente está vendo claramente que é o futuro. Uma das pessoas que me fez começar a fazer esse programa... Na verdade, começar a fazer não, porque eu já fazia... Eu comecei a fazer esse programa porque eu trabalhava no mercado financeiro, não tinha mais nada para fazer porque eu ia iniciar uma empresa, uma boutique financeira, aí rolou o apocalipse, eu falei: "Pô, não vou fazer uma boutique financeira nesse cenário", e comecei a fazer umas lives no Instagram só para inspirar as pessoas. Porque eu não via o mundo com tanto medo e pânico que estava rolando, sem julgar ninguém, mas eu queria espalhar um pouquinho de mensagens positivas, etc. Mas o que me fez começar a me profissionalizar mais foi quando eu comecei a ver o programa do Joe Rogan. Você conhece o Joe Rogan, nos Estados Unidos? Ele é o... No Brasil ele não é tão conhecido aqui, mas no mundo, né, ele é a pessoa mais conhecida que já rolou no planeta. Não sei se você já viu os números dele, mas ele é a mídia mais consumida da história da humanidade. Ele tem 300 milhões de downloads por mês, e isso nunca foi atingido por nenhum programa, nada, na história da humanidade. E a coisa dele é justo isso que você tá falando, é disruptivo, é sobre comunicação espontânea. Ele, porra, fuma um bong com o convidado dele ao vivo e fala sobre tudo, entrevista desde presidentes até segurança de boate, e isso aí é uma coisa tipo... Porra, é uma revolução. E eu acredito que a comunicação é isso agora, né? Tipo, essa dessacralização que você falou não só é necessária, como é o que o povo quer, tanto que ele é o cara mais popular da história da humanidade.
Edu Carvalho: [29:49] E você vê que hoje no Brasil, acho que o maior fenômeno, Eron, que fala disso e que pensa isso, é o fenômeno do qual eu sou filho, porque eu começo, hoje de certa forma consolidado, colunista de dois portais super reconhecidos, lidos, como UOL e Época. Já tenho o AdminerZog na conta, passei pela CNN, ajudei a criar, passei pela TV Globo, mas eu começo aos 11 anos ajudando a criar um site de notícias da Rocinha. E a gente percebe hoje que os grandes meios de comunicação no Brasil, sobretudo, eles têm se dobrado a tentar captar essa comunicação, como é que se faz essa comunicação comunitária. Eu volto lá no início da nossa conversa: a comunicação que está a serviço do outro. É esse outro que está do seu lado. Por isso chamada de comunitária, porque é a comunicação dos serviços. É uma comunicação muito dinâmica, muito rápida, cujo feedback é muito rápido, é muito preciso. Você posta, alguém vê, alguém responde, está feito. E é uma comunicação toda calcada num jornalismo de solução. Não é só apresentar o problema, é apresentar o problema e apresentar: "Olha, aqui a gente tem um problema, a gente tá falando disso, a gente tem noção disso aqui, agora aqui tá a solução." Então, como é que a gente chega nisso o mais rápido possível pra gente resolver isso, tentar resolver isso hoje? Porque a gente fala muito, né, o amanhã vai ser melhor, o amanhã vai ser melhor, mas o meu amanhã é daqui a dois minutos. Eu não sei, é uns dois minutos daqui. Então, por que eu não posso começar a pensar essa revolução, de certa forma, para o agora? O agora que está acontecendo aqui, para que no amanhã isso já seja uma mudança mais madura e que alguém possa vir e melhorá-la. Enfim, tem uma série, é pensar em cadeia. E o jornalismo comunitário no Brasil periférico... Eu falo periférico não só relacionado às favelas, mas aos lugares que a gente não dá vazão: Nordeste, Norte, comunidades indígenas... Pessoas que são invisibilizadas, mas ao mesmo tempo são a maioria do Brasil. Então cabe a elas estarem em voga, é pensar muito nisso. Essa é a comunicação que me põe a fazer, e é a comunicação que está sendo demandada hoje. Como você vê nas redes sociais, é dessa forma que as pessoas querem se ver. Porque no final das contas, para fechar, tem um grande teor de representatividade em tudo isso, que as pessoas querem não só se ver na tela, mas elas querem se ver como as produtoras desse conteúdo. Elas querem falar: "Olha, eu estava ali e fui eu, eu que dei a informação, eu que fui a fonte." Ele tá falando de mim, e não é só falando de mim, ele é um par meu, então ele sente na pele o que é acordar com um tiro, acordar sem água, acordar sem luz, viver sem saneamento básico, não ter vacina, num Brasil colapsado como esse, a fome...
Eron Falbo: [33:09] Então... E você mora numa comunidade, não?
Edu Carvalho: [33:13] Exatamente, eu estou falando direto também, é uma conexão Rocinha-Leme aqui.
Eron Falbo: [33:19] É, porque nessa você me humilhou um pouco, porque você está representando, está true, e eu estou aqui na frente da praia, não tenho muito o que...
Edu Carvalho: [33:30] Eu posso, mas é o que eu estava dizendo. É o... Lulu, numa das canções, dizia, né: unir a zona norte à zona sul, é unir o morro e o asfalto, que a gente... Veja, numa conversa que já deu aí 40 minutos, a gente falou de coisas muito parecidas e de pensamentos muito semelhantes.
Eron Falbo: [33:50] Eu queria te perguntar, então: você fica aí porque você quer... Você quer ver isso, quer testemunhar isso, quer sentir na pele, você não quer perder esse vínculo. Fala um pouco sobre essa sua escolha, porque, pelo menos, me parece claramente uma escolha, ou não?
Edu Carvalho: [34:11] Eu acho que pesa isso, já me foi perguntado em alguns outros momentos. Pesa sempre, claro, a questão financeira, sem sombra de dúvida, mas também pesa esse fator que é: veio a família que chegou aqui nos anos 80, na verdade, nos anos 80. Está batendo aí quase 45 anos de história só nesse mesmo lugar. Então, aqui constituí laços, constituí afetos, constituí minha vida. Nasci aqui, cresci aqui, me desenvolvo e vejo as coisas acontecerem. É claro que, saindo daqui, indo para outro lugar, os filtros que aqui criei não vão ser aniquilados, longe disso. Cada lugar vai aumentando a bagagem.
Eron Falbo: [35:05] Sim, vai ficando assustador.
Edu Carvalho: [35:06] Mas eu acho que também tem um momento muito complicado de pensar assim: estrutura, como é que a gente faz isso, sobretudo nesse período. Eu cheguei inicialmente... no início do ano nós iríamos mudar. Eu vim nesse amadurecimento de que talvez seja a hora de ter uma questão mais estrutural, uma linha de trabalho, enfim.
Eron Falbo: [35:30] Não, eu sou o último a jogar. Estou mais curioso.
Edu Carvalho: [35:33] Eu falei: caramba, como é que a gente faz agora? Depois de quase três anos de amadurecimento, para sair... como é que você sai durante uma pandemia? Aí você vai para outro lugar, aí você fica pensando: vamos ver como é que funciona isso. E aí, passados 15 meses, a gente ainda fica... já voltamos a pensar sobre a saída, mas isso é do coração. Então está sendo demorado, no tempo que tem que ser.
Eron Falbo: [36:03] E que bom que, enquanto isso, você continua representando, porque você continua aí presente, ainda mais nesses tempos que realmente faltam jornalistas que saibam o que está acontecendo nas comunidades de fato, porque eu acho que tem muita falsa representação, tem muita superficial representação.
Edu Carvalho: [36:28] Não, eu brincava muito, brincava inicialmente. Eu não estou desmerecendo, longe disso, família é um ícone. Mas tem uma coisa que eu falava: qual é a minha diferença com o Caco Barcellos? A diferença que eu tenho do Caco é que o Caco mora em São Paulo, ele pega um avião, ele vai fazer a matéria aqui na Rocinha, ele vai voltar para o aeroporto, ele vai pegar o avião e vai chegar em casa em São Paulo. Ele não vive essa realidade. Agora, eu vivo daqui. Então... eu tive gradações ao longo da trajetória profissional. Era, inicialmente, o menino que falava da Rocinha para a Rocinha, ou seja, o que criou o site de notícias que os moradores liam. Depois eu passei a ser o menino que falava da Rocinha para o Rio, quando eu começo a escrever artigos para o Globo, para a Folha, para o Nexo, para o Colabora, e a dar entrevistas. Depois eu tive uma outra mudança de chave, que era o menino que, já nesse lugar da grande mídia, já na TV Globo, já quase colunista esporádico do Globo, falando do Rio de Janeiro para o Brasil, e nos últimos tempos falando do Brasil e do mundo, sem deixar de falar desse território. Então eu brinco que, quando eu escrevo as colunas semanais, tanto a da Época quanto a do UOL, eu brinco que é como se eu estivesse em cima da laje. E o que eu tenho abaixo é todo o Brasil. Então, o que acontece no Beco é uma espécie do que está acontecendo na Faria Lima, no Amapá, no Pará. Porque tudo acontece... E veja, olha que loucura: eu moro num lugar com mais de 100 mil pessoas, quase compartilhando esse mesmo território. São pessoas que, aparentemente, não se conhecem, mas se cruzam todos os dias: na feira, no banco, na van, na UPA, no mercado, enfim, elas se cruzam. Então, têm os mesmos comentários ou não, têm muitas divergências, é uma convergência de pensamentos. Eu fico... meu Deus, para mim isso aqui era... Você que já deve ter rodado algumas partes do mundo e do país, mas, para mim, não é Nova Iorque, não é Londres, não é Singapura, que é cosmopolita. A Rocinha é cosmopolita, porque tem essa influência e tem essa participação maciça e massiva de pessoas também de fora. Recebe muita gente de fora, é um porto, de certa forma, do Rio de Janeiro. E eu brinco que, uma vez, escutando o Manoel Carlos, perguntaram para ele: por que você escreve tanto sobre o Leblon? E ele deu uma resposta meio desaforada, disse: porque o Leblon é um dos tambores do Brasil. Quando eu falo do Leblon, eu posso estar falando ali de um microcosmo, mas esse microcosmo está presente em todos os outros 26 estados.
Eron Falbo: [39:32] Isso é muito interessante, isso também. Eu acho que esse insight que você está dando é uma coisa que o mundo também está aprendendo. Eu acho que esse fato era ocultado pela fantasia de Hollywood, a fantasia no Brasil da Globo. Quando eu digo isso sem aquela coisa de Globo lixo, eu estou dizendo a fantasia de criar uma camada de um sotaque só. Nos Estados Unidos tem isso. Eu passei um tempo no sul dos Estados Unidos e os velhos falavam com aquele sotaque caipira e os novos todos falavam igual, todo mundo falava nos filmes de Hollywood. Porque eles cresceram assistindo televisão, assistindo coisas de Hollywood. Então, criou-se no mundo essa camada de que o mundo é uma coisa só, meio assim, ou como Hollywood ou como a Globo. E acho que a gente está voltando agora, na era da mídia social, a lembrar que existem esses microcosmos regionais com tanta importância, a descobrir. Tipo assim, eu mesmo passei boa parte da minha vida, talvez 80% da minha vida morando em diferentes cidades do mundo só pra descobrir que porra, é toda cidade igual, tem prós e contras. Não adianta você ficar tentando ir pro Eldorado, pra Camelot, chegar no lugar, na Terra Prometida. Que tudo é feito de pessoas e tem prós e contras, tem pessoas ruins, pessoas boas, pessoas que você vai amar, pessoas que vão te machucar. Enquanto tem facilidade de um lado, tipo nos Estados Unidos, você consegue receber entregas na Amazon, aqui você tem facilidade de pessoas abertas, água de coco, que a pessoa corta rapidão e te dá barato. Tem uma série de outras coisas, cara. Tem mil coisas que você pode dizer de prós e contras de todos os lugares do mundo. E é isso que eu acho que eu tô pegando um pouco do que você tá falando. Que, cara, tipo... por um lado, óbvio que estruturalmente depende da sua vida, o que você quer, o que você está fazendo. Se você vai ser ator, de repente vale a pena você ir para o Rio de Janeiro ou ir para Los Angeles. Se você é um repórter, você precisa de uma estrutura, de repente você precisa de uma internet melhor, etc. Mas no fundo, se não for certos detalhes, você pode ficar na Rocinha a sua vida inteira, porque tem aventuras aí, tem o mundo inteiro aí, tem o cosmos inteiro dentro de um átomo.
Edu Carvalho: [42:18] Exatamente, você resumiu tudo nessa sua última frase. Acho que é tornar claro, parte também muito de uma evolução da consciência: entender que esse lugar, que para muita gente pode parecer muito assustador por conta de tudo que a gente sabe e que é visto, também é um lugar de muita possibilidade. Quando você olha não só para cá, para a Rocinha, mas para tantas outras favelas e periferias do Brasil, é um lugar que ressignifica. Quando você vê, nesse período, que as maiores ações de mobilização humanitária para mitigar os efeitos da pandemia foram feitas pelas favelas, você fala assim: caramba, não era esse o lugar da falta? Não era esse o lugar que só produzia violência? Não. Então você começa também a desmistificar e também a querer criar, criando, no gerúndio, autoestima. Autoestima, para ver como é possível, com uma pessoa que vai chegar e que não precisa sair daqui buscar esse sonho, talvez muito distante disso, mudar toda a sua vida, todo o seu pensamento, enfim, flertar com um sonho que não é o seu verdadeiro, de certa forma, para se desvencilhar dessa sua origem, né? Não é preciso, hoje não é mais.
Eron Falbo: [43:39] Eu acho que isso é uma coisa até espiritual que você tá tocando, e eu tenho vivido isso assim na minha trajetória, porque quanto mais longe eu vou de casa, mais perto eu preciso estar de casa. Mais perto, mais gritante fica a minha falta de autenticidade, entendeu? Então mais desesperado eu fico por uma coisa mais simples, por uma coisa menos cheia de camadas e máscaras que a gente cria.
Edu Carvalho: [44:14] Que a gente está usando tanto.
Eron Falbo: [44:17] E eu acho que no mundo a civilização criou essas coisas. E na pandemia, muitas dessas estão sendo tiradas e muitas dessas estão sendo expostas. Muita coisa feia está sendo exposta, muito perdão está sendo pedido também, ao mesmo tempo. Então a gente está vivendo essa revelação no mundo, que é muito bonita. Eu acho que tem tudo a ver com isso que a gente está falando, com a volta às origens, a aceitação das origens, a gratidão pelas origens. A gratidão pelo que há em nossa volta, porque isso também faz parte dessa coisa regional, porque é, afinal, o que há em nossa volta: o que Deus deu, o que a gente nasceu tendo, o que os nossos pais deram, se você não for religioso; o que a gente cresceu tendo. E a gente deve pelo menos um pouquinho de gratidão para aquelas pessoas que construíram aquilo para a gente. A gente pode ser a pessoa... mas eu nasci na sarjeta, meus pais são viciados em crack, mas, cara, eles fizeram grandes esforços de uma maneira ou de outra, ou alguém em volta fez: algum avô, ou a sociedade, alguma escola, pra você tá falando a língua que você tá falando. Alguém fez algum esforço e isso merece gratidão, e a gente fugiu durante décadas e décadas e centenas de anos, talvez milênios, dessa gratidão. Eu acho que, com a informação...
Edu Carvalho: [45:53] Ó.
Eron Falbo: [45:53] Mar de informações que a gente está vendo hoje, a gente está percebendo que a gente não precisa da maioria dessa informação, que a gente já tem aqui tudo que a gente precisa.
Edu Carvalho: [46:01] É muito triste, infelizmente, constatar isso, só para arrematar, nesse período da maior crise sanitária do século. Só no Brasil, a gente já perdeu quase 440 mil pessoas, estamos perto de bater 500 mil. Então, precisou que quase 500 mil, meio milhão de pessoas, tivessem que partir, que a nossa vida tivesse que ser modificada, as nossas vidas dentro de casa, para que a gente entendesse que menos é mais, e que a gente precisa reiterar que as coisas simples bastam. O afeto é a única coisa que pode salvar, o amor, as pessoas que nós temos à volta, e agradecer, de certa forma, pela vida, por essa dádiva de estar vivo. A gente tem acompanhado, nas últimas duas semanas, semanas muito difíceis para o Brasil, perdas que a gente não pensava, pessoas que se foram num átimo de segundo. E quando você olha e fala: caramba, viver... o que é viver? Como é que você pode fazer da sua vida melhor, impactando o outro da melhor maneira possível? É horrível ter que falar isso, mas é quase uma reparação de danos a tudo que a gente veio fazendo ao longo dos últimos anos; a gente se coloca a fazer isso nesse período, ainda muito difícil, porque para fazer todas essas reparações precisaria estar presencialmente, o que não tem sido possível. Então, você fica quebrando a cabeça, mas esse quebrar a cabeça, Eron, é muito bom, porque já te deixa num estágio de alerta.
Eron Falbo: [47:47] Edu, eu vou te dizer uma coisa: os meus dois pais tiveram câncer, os meus dois pais aprenderam a viver depois que tiveram câncer, começaram a ter vidas mais leves, mais gratas, infelizmente. Especialmente prezando o seu horário, a gente tem só mais quatro minutos de conversa. Eu queria que a gente não fosse pego de surpresa nos últimos minutos. Queria te agradecer imensamente pela sua presença aqui hoje. Acho que a gente atingiu níveis de muita sinceridade, uma mensagem muito bonita para todos aqueles que estão nos ouvindo e que vão nos ouvir nas gravações. Eu sempre deixo uma última pergunta antes da gente ir embora, e queria fazer rapidamente pra você, pra gente conseguir terminar a tempo. Depois de tudo isso que a gente falou, eu queria saber aqui pra você, Edu Carvalho: o que mais importa nesse mundo?
Edu Carvalho: [48:53] Que pergunta difícil, hein, rapaz? Estar vivo, poder agradecer de estar com quem a gente ama. Eu acho que nesse momento é isso. Agradecer, estar grato pelas coisas mais simples e reiterar isso às pessoas diariamente. Eu acho que tem sido muito importante para a gente conseguir continuar vivo. Acho que é um ato de resistência apostar na vida. E nós, eu posso falar por você, nós apostamos na vida, nós depositamos esperança na vida. Então, hoje, depositar esperança na vida é um ato de resistência. Então, agradecer por ela, por esse grande milagre que é estar vivo. Isso me importa muito.
Eron Falbo: [49:50] Que final lindo aí para o nosso episódio. Muito obrigado, Edu. Se puder ficar um minutinho aí na linha enquanto eu faço os avisos paroquiais, aí depois a gente se fala um minutinho, pode ser?
Edu Carvalho: [50:03] Claro.
Eron Falbo: [50:04] Valeu, meu querido. Muito obrigado e tudo de bom. Boa noite aí para você. Eu vou falar aqui o que eu aprendi, de costume, nesse episódio. Antes, eu queria pedir para vocês darem o like, avisarem suas avós, seus amigos, sobre o nosso programa, sobre essa experiência que vocês tiveram aqui hoje com a gente. Porque a gente não ganha nada com esse programa, o que a gente ganha é que ele seja espalhado e que a gente continue crescendo, que mais pessoas boas como o Edu Carvalho possam vir conversar aqui com a gente, e as conversas como essas sejam ouvidas por mais pessoas boas, e isso seja multiplicado por aí. Então é isso, gente, espalhem essa palavra. E queria dizer que o que eu aprendi hoje com o Edu, principalmente, eu acho que foi milhões de coisas, mas... ele sendo uma pessoa tão jovem, tão madura. Primeiro, eu acho que as pessoas têm que realmente olhar mais para as comunidades, porque tem pessoas crescendo nas comunidades que realmente brilham, e brilham assim, um brilho especial. Quando eu digo isso, não digo isso de forma humanitária, eu quero dizer isso de forma egoísta socialmente, porque a gente tem que olhar para as nossas pérolas, para as melhores coisas que a gente tem, e para poder ser uma sociedade maior, mais brilhante. Mas o que aprendi com o que ele disse exatamente... tinha uma coisa especial que ele tinha dito que não está me vindo agora na memória, mas vou dizer uma coisa que a gente aprendeu junto, eu acho, que é essa coisa da comunicação. A gente tem que aprender a ser cidadãos mais maduros e aprender a responsabilidade que a gente tem sobre a nossa comunicação. Lembrei o que ele falou, que a comunicação não é só o emissor e o receptor, a comunicação é para cada um de nós. Isso eu estou aprendendo, porque às vezes eu estou preocupado com o que eu estou falando para vocês, audiência, público, e na verdade às vezes eu esqueço de me comunicar melhor com a minha equipe aqui que está do meu lado. E às vezes tem um monte de erro de comunicação que leva a falhas, etc. Então, Edu, você me ensinou isso. Muito obrigado. E é isso, gente. Lembrem-se que no final vai dar tudo certo. É isso.
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